02 de Setembro de 2019 - 10h:42

Tamanho do texto A - A+

Um terço das usinas de etanol em Goiás está em recuperação judicial

Por: Jornal Opção

Impactos da política de preços e custos de produção levaram 11 usinas goianas a buscarem a lei para não falir

 

A crise financeira no setor que produz açúcar e etanol no Brasil levou 11 usinas goianas a pedir recuperação na Justiça, uma forma de alongar prazos de pagamentos, aplicar deságio em credores e obter outros benefícios jurídicos para não falir. Esse número representa um terço das usinas em funcionamento no Estado – ao todo são 35. As dificuldades começaram em 2008 com a crise dos subprimes norte-americanos, que resultou na redução de empréstimos ao setor brasileiro. Aliado à crise de financiamento, as usinas em Goiás perceberam aumento na alíquota de ICMS, o imposto estadual sobre circulação de mercadorias e serviços, de 15% em 2006 para 22% em 2008.

 

O presidente do Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg), André Rocha, relaciona as atuais requisições de recuperação judicial ao impacto das medidas ao longo desses 11 anos. “O setor estava em expansão naquela época com muitas usinas sendo construídas e outras reformadas. Quando cortaram o acesso ao financiamento bancário, os empresários precisaram terminar os investimentos com recursos próprios, o que prejudicou o caixa das empresas”, explica Rocha.

 

Os empresários tentaram outras formas além do financiamento bancário para equilibrar o caixa. Alguns venderam parte da empresa para novos sócios, três conseguiram abrir capital na Bolsa de Valores – grupo Tereos, San Martinho e Cosan -, e outra parte vendeu usinas em outros Estados para concentrar esforços em Goiás. Depois da crise, o grupo Cosan se uniu à Shell e formou o grupo Raízen, o maior do mundo no ramo de combustíveis. A San Martinho tem uma usina em Goiás.

 

Mas Rocha destaca que essa movimentação trouxe baixos valores para as empresas por causa da depreciação do setor. Os ativos não tinham mais o mesmo valor de antes da crise.

 

Outros fatores acentuaram o endividamento das empresas: a retirada da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide-combustíveis) no final do governo Lula em 2011, que segurou artificialmente o preço da gasolina até 2014, cita o presidente da Sifaeg.

“O prejuízo foi inestimável para a Petrobras porque importava gasolina por um preço mais caro do que vendia no mercado brasileiro. Isso trouxe prejuízo para o setor. A gasolina é nossa concorrente, então tínhamos que vender o álcool com preço mais baixo. Naquele momento nenhum empresário estava vendo o custo, apenas preço de venda”, explica Rocha.

 

As usinas sobreviventes até o momento adotaram medidas de segurança ainda em 2008. Entre elas deixar de investir em expansão enquanto o restante do mercado seguia o fluxo econômico positivo da época. “Essas empresas não cresceram, mas também não se endividaram e estão vivas hoje”, diz Rocha. As multinacionais, segundo o presidente da Sifaeg, tiveram acesso a crédito externo e passaram mais superficialmente sobre a crise.

 

Uma das usinas em recuperação judicial em Goiás desde 2015 é a Rio Verde, localizada na cidade que leva o mesmo nome, que atribuiu a dificuldade financeira aos investimentos empenhados em 2012. As máquinas da usina tinham capacidade para moer 600 mil toneladas de cana por safra.

Apesar das baixas, a produção em Goiás cresceu nos últimos três anos e atingiu 70 milhões de toneladas de cana-de-açúcar processada no primeiro semestre. O Estado continua a ocupar o segundo lugar no ranking de maiores produtores brasileiros, perdendo apenas para São Paulo.

Greve no transporte impactou preço

 

Em maio de 2018, a greve dos caminhoneiros mostrou caminhos que levariam à redução do preço dos combustíveis no País, em especial do diesel. Uma das possibilidades era eliminar as empresas distribuidoras para que o etanol fosse negociado diretamente entre a usina e o posto de combustível.

Um proprietário de usina em Goiás diz, sob a condição de anonimato, que o preço do etanol chegaria poucos centavos mais barato ao consumidor ao excluir as distribuidoras da negociação. “Mas não vejo como benéfico. As usinas teriam de montar um setor específico para fazer cobrança e cuidar da logística de entrega. Daria muito mais trabalho e prejuízo”, conta o empresário.

 

O que se conversava nos bastidores em 2018, quando surgiu essa alternativa, era uma suposta vantagem que as usinas e postos teriam se rachassem o valor pago aos distribuidores. Mas segundo o empresário, esse formato se inviabilizaria com o tempo. “Um posto de gasolina compra 20 mil litros de etanol em um caminhão, enquanto a usina produz milhões de toneladas de litros, não daria certo.”

 

As conversas não foram esquecidas, segundo o empresário. O governo federal tende ainda a adotar esse mecanismo de venda no futuro. “Há uma briga sobre isso: os produtores do nortes defendem a venda direta aos postos, mas os usineiros do Centro-Sul, que detêm 90% da produção nacional, não querem”, relata. Um terceiro problema seria a venda para os postos bandeirados, aqueles que vendem combustível de uma petroquímica, como a Shell, Petrobras, Ipiranga. Esses postos só podem comprar combustível da distribuidora indicada pela bandeira.

Em dez anos, 20% das usinas no Brasil pediram recuperação judicial

 

Nos últimos dez anos, 80 usinas fecharam no País. Das 400 em funcionamento, 80 estão em recuperação judicial, o que representa 20% do setor. Apenas neste ano, três grandes grupos empresariais, que somam 20 unidades, entre eles a paranense Santa Terezinha, entraram no Judiciário com pedido de recuperação.

 

De acordo com um levantamento da RPA Consultoria, ainda na safra 2019 e previsões para 2020, dez grupos podem necessitar de ajuda judicial. O relatório aponta a possibilidade de a Usina Itajobi (SP), antiga Odebrecht Agroindustrial, entrar na Justiça com uma proteção contra os credores.

 

O ano de 2015 registrou a maior quantidade de pedidos de recuperação dos últimos dez anos: 13 durante todo o ano, enquanto a média era 11. O estudo destaca o expressivo valor das dívidas de grandes empresas que chegam a R$ 8 bilhões.

 

Conforme o relatório da RPA apresentado em abril deste ano – ou seja, que ainda não considerava os pedidos mais recentes –, aparecem 444 usinas brasileiras em funcionamento. Delas, 79 estavam em recuperação judicial e 27 decretaram falência.

 

O diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, em entrevista ao portal Nova Cana, diz que a situação de endividamento das usinas é resultado de vários fatores associados. Reforçando a fala de André Rocha, da Sifaeg, um dos principais foi o congelamento de preços da gasolina. Entre 2008 e 2014, o preço do etanol ficou quase sem alterações nos postos de combustíveis, mas o setor teve aumentos nos custos de produção.

 

No mesmo período, as usinas se envolveram num ciclo de grandes investimentos que não geraram o retorno esperado e os juros elevados ampliaram o endividamento de muitos grupos, que perderam competitividade em um cenário no qual os preços do açúcar e do etanol estavam próximos aos custos de produção.

 

Um estudo do Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) mostra ainda um prejuízo de R$ 23 por tonelada produzida na safra de 2018/2019. O custo médio de produção da cana é de R$ 103 por tonelada, mas os produtores independentes, por exemplo, recebem R$ 80 por tonelada.

 

Os custos de produção da cana-de-açúcar “têm se tornado cada vez mais elevados, afetando especialmente os produtores independentes, que usualmente não são remunerados de forma que torne a atividade vantajosa economicamente. Essa situação se estende há anos e a queda na produtividade dos canaviais a acompanha em um ciclo vicioso”, diz o relatório do Pecege.

 

Na temporada 2018/2019, os produtores de cana sofreram com a queda de produtividade agrícola por conta da seca no início da safra, que durou quase 120 dias. “O fato pressionou os custos de produção, que também foram afetados pela elevação do preço do diesel, dos pneus, dos fertilizantes e dos defensivos agrícolas”, ressalta o documento.

 

O estudo também destaca que a busca pela produtividade é necessária neste cenário de aumento de custo na produção. As empresa devem encontrar “mecanismos de incremento da renda dos produtores, que são negociados com as usinas. Com isso, seria possível tornar a cadeia da cana-de-açúcar mais sinérgica e eficiente”, sugere o estudo.

 

Um destes mecanismos está na mais recente alteração do Consecana, que estabelece o pagamento de um prêmio associado à pureza no caldo da cana, fator que gera um maior rendimento industrial.

 

O estudo do Pecege resulta, basicamente, de uma pesquisa sobre a situação dos produtores independentes de cana na safra 2018 e 2019, com amostra de 38 regiões produtoras nos seis estados brasileiros do Centro-Sul.

 

O programa dividiu as regiões em painéis e fez reuniões com grupos de produtores para definir as características técnicas e econômicas do sistema de produção típico daquela área. Com isso, o estudo não apresenta particularidades individuais, mas um panorama regional dos custos.

VOLTAR IMPRIMIR